Sonho, prelúdio de esperança!

Esses dias, vasculhando meus guardados, encontrei dois textos que escrevi quando tinha 22 anos. Sou daquelas que tem mania de guardar coisas. Acredito que de alguma forma materializam lembranças deliciosas que vivemos. Fios condutores de experiências!

Resolvi compartilhar essa crônica com vocês. Na época tinha o ballet como uma das principais coisas de minha vida. Dancei dos 4 aos 19 anos! Participei de um grupo de dança chamado “Academia Ana Flora”, fazia parte dos profissionais de dança de São Paulo e rodávamos o interior entre apresentações, campeonatos (ganhamos alguns), mostras e festivais.

Esse, com certeza, será um assunto para um outro texto recheado de emoção. Porque se tem uma coisa que vivemos nessa época foram emoções.

Vamos lá, segue o mesmo na íntegra:

Sonho, Prelúdio de Esperança

“Cinco anos… Essa era a imensa quantidade de anos que eu já havia vivido. Pouco? Para mim não, afinal eram 500% a mais desde meu nascimento. Já conseguia distinguir muitas coisas. Tinha a firmeza e teimosia muito expressivas para a minha pequena idade. Meus pais, minha família, faziam parte da “classe do salário mínimo”. Nosso cotidiano era recheado de dificuldades. Meu pai trabalhava numa metalúrgica no ABC e minha mãe de diarista. Apesar das dificuldades e da pouca instrução, tínhamos uma vitrola antiga, mas que ainda tocava. Tocava peças clássicas herdadas de meus bisávos que no início do século haviam imigrado da Itália para cá. Ficava horas ouvindo aquela imersão de notas. Verdadeiras relíquias que eram a nossa herança. Meu pai, minha mãe, meus 5 irmãos e eu  morávamos numa pequena casa de alvenaria, quase uma edícula. Apesar de tudo, compúnhamos uma bela família. União era a nossa maior riqueza. Em meio a tantas dificuldades, reprimia dentro de mim um grande sonho, ser bailarina. Esse sonho chocava meu racional e iluminava meu emocional. Conflitava com minha alma a culpa pela insensatez. Esse sonho era alimentado por aqueles discos, aquelas músicas… Eles eram os culpados! Porém, a esperança me acalentava o intelecto e o espírito, diminuindo o egoísmo “masoquista” de minha irresponsabilidade. O palco, as luzes, os aplausos,  o tilintar das sapatilhas no chão e a extensão de meus braços em forma de asas eram demais para mim. O tempo passava e meu sonho crescia sem controle. Minha mãe que vez ou outra era chamada para limpar o maior teatro de São Paulo, me levava junto. Eu viajava em meus sonhos. Um dia ainda iria conquistar aquele palco! Na volta da escola passava por uma escola de dança e ficava horas parada observando aquelas garotas iniciarem seus primeiros grandbatmans e getes. Minha mãe sofria  com a impossibilidade de realizar meu sonho. Cheguei no auge de meu delírio ao fim de meus 14 anos. Já sabia tudo que podia saber sobre o ballet. Vivia na biblioteca do meu bairro. Em casa, todos trabalhavam dobrado e o mínimo, cada vez mais mínimo. Só eu não trabalhava porque ajudava nos afazeres domésticos. Na manhã do dia que completei 15 anos, minha mãe estava abaixada no tanque e eu na cozinha lavando a louça do café. De repente, para variar, me transportei para meu velho palco… Numa visão deslumbrante, acordei. Uma mulher estacionou em frente à minha casa, desceu e chamou minha mãe. Eu estava estarrecida. Ana Botafogo, a 1ª. Bailarina do Brasil em minha humilde casa. Meus olhos se encheram de emoção. Estava imóvel. Conversaram por uns minutos. Imaginem, na 2ª, feira, minha mãe estaria trabalhando para ela. Vibrei!!!! Fui com ela no primeiro dia e em todos os dias seguintes. Um dia encontrei no lixo dela, uma sapatilha. Ficava espionando a sua leve, suave, mas marcante sequência de movimentos na ampla sala de ensaios. Ela era excepcional. Num rompante adolescente, entrei naquele palco particular e com a mágica sapatilha em meus pés fiz um voo no mundo dos meus sonhos. Não percebi que ela entrou e me admirou. Terminando o vai e vem de notas e atropelados passos, ela se aproximou e me abraçou com um sorriso dizendo que naquele instante nascia a mais nova bailarina. Explodi. Em poucos meses estava num palco de verdade começando a ensaiar meu primeiro grande papel na peça – “O Lago dos Cisnes”. Ela bancava todo o gasto que eu tinha. Nesse momento, uma mão pousou em meu ombro. Me voltei e era a minha mãe. À minha frente, a velha louça, a velha casa. Estivera sonhando… Olhei para os olhos de minha mãe e ela trazia um pacote em suas mãos, meu presente de aniversário. Sorri, acanhada. Meus dedos delicadamente nervosos rasgavam o papel e meu palco se encheu de luz. As lágrimas quentes escorriam pela minha face. Abracei minha mãe eternamente… Em minhas mãos segurava um palco real, um sonho de esperança, UMA SAPATILHA.” – Pathy Milaré, 07/05/1991.

O texto estava datilografado e o papel amarelado, mas a enxurrada de boas lembranças que ele me trouxe foi indescritível.

Meus sonhos mudaram nesses anos. Mas cada um deles foi importante em um espaço de minha vida. O que não mudou foi a intensidade com que trato esses meus sonhos e a força que imprimo para realizá-los.

Hoje, os “palcos” continuam me acompanhando e as coxias sempre escondem os tremores e emoção que sinto em cada novo “espetáculo”.

Cortinas abertas….

Por Pathy Milaré Bertão!

P.S: Continuo amando a dança e dançar! Me faz viva e é uma das minha maiores formas de expressão.

 

               

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